O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é uma das maiores vantagens da renda fixa brasileira. Criado em 1995, ele funciona como uma espécie de "seguro" para os investidores, garantindo a devolução de valores caso uma instituição financeira quebre. Segundo dados do próprio FGC, o fundo já devolveu mais de R$ 5 bilhões a depositantes e investidores desde sua criação.

Mas muitos investidores ainda têm dúvidas sobre como essa proteção funciona na prática. Quais investimentos estão cobertos? Qual é o limite? Como usar a garantia a seu favor na hora de montar uma carteira? Neste guia completo, vamos responder a todas essas perguntas.

O Que É o FGC e Como Ele Funciona

O FGC é uma entidade privada, sem fins lucrativos, mantida pelas próprias instituições financeiras associadas. Bancos, financeiras, cooperativas de crédito e associações de poupança e empréstimo contribuem mensalmente com 0,0125% do total de depósitos elegíveis para formar o patrimônio do fundo.

Quando uma instituição financeira tem sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, o FGC entra em ação para ressarcir os investidores cobertos. O processo costuma levar entre 30 e 90 dias após a decretação da liquidação, e o pagamento é feito por meio de uma instituição pagadora designada.

É importante entender que o FGC não é uma garantia governamental. Trata-se de um mecanismo de mercado, financiado pelos próprios participantes do sistema financeiro. Ainda assim, seu patrimônio superava R$ 107 bilhões em 2025, segundo relatório anual da entidade, o que confere alto grau de solidez à garantia.

Quais Investimentos São Cobertos pelo FGC

Nem todos os produtos de renda fixa contam com a proteção do FGC. A cobertura é restrita a instrumentos específicos emitidos por instituições associadas. Veja a comparação completa:

InvestimentoCoberto pelo FGC?Observações
CDB (Certificado de Depósito Bancário)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
LCI (Letra de Crédito Imobiliário)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
LCA (Letra de Crédito do Agronegócio)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
LC (Letra de Câmbio)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
PoupançaSimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
Depósitos à vista (conta corrente)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
RDB (Recibo de Depósito Bancário)SimAté R$ 250 mil por CPF/instituição
Tesouro DiretoNãoGarantia do Tesouro Nacional (risco soberano)
DebênturesNãoRisco de crédito do emissor
CRI e CRANãoSem garantia do FGC
Fundos de investimentoNãoPatrimônio segregado, sem cobertura

Se você está começando a investir, vale conferir nosso guia de primeiro investimento em renda fixa para entender qual produto é mais adequado ao seu perfil.

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Limites da Garantia: R$ 250 Mil e o Teto Global

A cobertura do FGC possui dois limites fundamentais que todo investidor precisa conhecer:

Limite por instituição: R$ 250.000 por CPF (ou CNPJ) em cada instituição financeira. Esse valor inclui o principal investido mais os rendimentos acumulados até a data da liquidação.

Teto global (desde 2017): R$ 1.000.000 por CPF, renovável a cada 4 anos. Isso significa que, se você distribuir R$ 250 mil em 10 bancos diferentes, apenas R$ 1 milhão estará efetivamente coberto dentro de um período de 4 anos.

Como funciona o cálculo na prática

Imagine que você investe R$ 200 mil em um CDB do Banco A. Após 1 ano, com rendimento de 14% a.a. (Selic atual), o saldo acumulado será de aproximadamente R$ 228 mil. Se o Banco A quebrar nesse momento, o FGC garante os R$ 228 mil integrais, pois estão abaixo do limite de R$ 250 mil.

Agora, se o saldo acumulado chegasse a R$ 280 mil, você receberia apenas R$ 250 mil — os R$ 30 mil excedentes ficariam como crédito quirografário na massa falida, com baixíssima probabilidade de recuperação.

Estratégia de Diversificação para Maximizar a Proteção

Uma das estratégias mais inteligentes da renda fixa é distribuir seus investimentos entre diferentes instituições para aproveitar ao máximo a garantia do FGC. Essa abordagem é especialmente relevante para quem tem patrimônio acima de R$ 250 mil, como mostramos na nossa simulação de quanto rende R$ 100 mil na renda fixa.

A estratégia na prática

Para um investidor com R$ 800 mil disponíveis:

InstituiçãoProdutoValor InvestidoTaxaCoberto FGC?
Banco A (médio porte)CDB prefixadoR$ 230.00015,0% a.a.Sim
Banco B (digital)CDB 120% CDIR$ 230.000~16,8% a.a.Sim
Financeira CLC 125% CDIR$ 230.000~17,5% a.a.Sim
Tesouro DiretoTesouro SelicR$ 110.000Selic + 0,05%Garantia soberana

Nessa configuração, os R$ 690 mil em títulos privados estão integralmente cobertos pelo FGC (3 × R$ 230 mil, abaixo do limite por instituição e do teto global de R$ 1 milhão). Os R$ 110 mil no Tesouro Direto têm garantia soberana, que é considerada ainda mais segura.

Cuidados importantes na diversificação

Alguns pontos exigem atenção:

  • Conglomerados financeiros: se dois bancos pertencem ao mesmo conglomerado, o limite de R$ 250 mil é compartilhado entre eles. Verifique o CNPJ raiz da instituição.
  • Rendimentos acumulados: lembre-se de que juros e correção monetária entram no cálculo. Se investir R$ 245 mil, os rendimentos podem ultrapassar o limite em poucos meses.
  • Conta conjunta: o limite é dividido igualmente entre os titulares. Uma conta conjunta com R$ 250 mil garante R$ 125 mil para cada CPF naquela instituição.
  • Prazo da aplicação: invista em títulos com vencimento compatível com sua necessidade. Em caso de liquidação, o FGC paga o valor de mercado na data, que pode ser inferior ao valor no vencimento para títulos prefixados.

Como Consultar se Sua Instituição É Associada ao FGC

Antes de investir em qualquer CDB, LCI ou LCA, confirme que a instituição emissora é associada ao FGC. Você pode fazer isso de duas formas:

  1. Site do FGC: acesse fgc.org.br e consulte a lista de associados
  2. Site do Banco Central: verifique se a instituição possui autorização para funcionar

Vale notar que corretoras de valores (como XP, BTG, Rico) não são instituições depositárias — elas apenas distribuem os produtos. A garantia do FGC está vinculada ao banco emissor do CDB, não à corretora onde você comprou.

FGC vs Tesouro Direto: Qual Garantia É Mais Forte?

Esta é uma dúvida comum. O Tesouro Direto não tem cobertura do FGC, mas possui garantia do Tesouro Nacional — o governo federal. Na hierarquia de risco:

Tesouro Nacional (risco soberano) > FGC (risco privado coletivo) > Sem garantia

O risco soberano é considerado o mais baixo de um país, pois o governo pode, em tese, emitir moeda para honrar seus compromissos. O FGC, embora extremamente sólido, depende do patrimônio acumulado pelas contribuições das instituições.

Na prática, ambos são considerados muito seguros para o investidor brasileiro. A escolha entre produtos cobertos pelo FGC e Tesouro Direto deve levar em conta outros fatores, como rentabilidade, liquidez e tributação. Se você quer entender melhor os títulos públicos, confira nosso guia completo de renda fixa.

Casos Reais de Acionamento do FGC

O FGC já foi acionado diversas vezes ao longo de sua história. Alguns casos notáveis:

  • Banco Santos (2004): uma das maiores liquidações, com R$ 2,3 bilhões devolvidos aos depositantes
  • Banco BVA (2012): liquidação com ressarcimento de mais de R$ 2 bilhões
  • Banco Neon (2020): o FGC ressarciu clientes da conta digital que era operada via Banco Neon (a fintech Neon continuou operando com outro parceiro bancário)

Segundo dados da Anbima, a taxa de inadimplência de emissores bancários no mercado de capitais brasileiro é historicamente baixa — inferior a 0,5% ao ano. Isso reforça que, embora a garantia do FGC seja importante, a probabilidade de acionamento é relativamente pequena quando se escolhem instituições minimamente sólidas.

Como Receber o Ressarcimento do FGC

Se uma instituição onde você tem investimentos for liquidada, o processo funciona assim:

  1. Decretação da liquidação: o Banco Central publica resolução determinando a liquidação extrajudicial
  2. Convocação dos credores: o FGC divulga um edital com as instruções para recebimento
  3. Verificação de dados: você confirma seus dados cadastrais (CPF, conta bancária para recebimento)
  4. Pagamento: o FGC realiza o depósito na conta indicada, geralmente em 30 a 90 dias
  5. Valores acima do limite: ficam como crédito quirografário na massa falida

Não é necessário contratar advogado ou entrar na justiça. O processo é administrativo e conduzido integralmente pelo FGC.

Perguntas Frequentes

O FGC cobre investimentos em corretoras como XP e BTG?

O FGC não cobre a corretora em si, mas sim os títulos emitidos por bancos associados que você compra por meio dessas corretoras. Se você adquire um CDB do Banco A pela XP, a garantia é do Banco A (emissor), não da XP (distribuidora). Se a corretora quebrar, seus títulos continuam registrados na B3 e podem ser transferidos para outra corretora.

Posso ter mais de R$ 250 mil protegidos pelo FGC?

Sim. O limite é de R$ 250 mil por CPF por instituição. Distribuindo seus investimentos entre diferentes bancos, você pode ter até R$ 1 milhão protegido a cada período de 4 anos. Com patrimônio maior, combine títulos privados (FGC) com Tesouro Direto (garantia soberana) para maximizar a proteção.

O que acontece se o próprio FGC quebrar?

Embora improvável — o patrimônio do fundo supera R$ 100 bilhões —, o FGC não conta com garantia governamental explícita. Em um cenário catastrófico de múltiplas quebras simultâneas, seria esperada intervenção do Banco Central e do governo federal para preservar a estabilidade do sistema financeiro, mas não há obrigação legal para isso.

CRI e CRA não têm cobertura do FGC. Vale a pena investir?

CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) não contam com garantia do FGC, mas podem oferecer prêmios de risco superiores e isenção de IR para pessoa física. A decisão depende do seu perfil de risco e do nível de diversificação da carteira. Para iniciantes, recomenda-se começar com produtos cobertos pelo FGC.

O FGC cobre conta digital (Nubank, Inter, C6)?

Depende da estrutura. Se o saldo fica em conta de pagamento (instituição de pagamento), não há cobertura do FGC. Se fica em conta bancária (banco múltiplo), há cobertura. Nubank e Inter são bancos múltiplos, portanto seus depósitos à vista e CDBs possuem proteção do FGC. Sempre verifique a classificação da instituição no site do Banco Central.